sábado, 30 de junho de 2007

Cumprimentos pela Aprovação das Cotas na UFRGS

Ivan de Paolo de Paris Fontanari (doutorando em antropologia social da UFRGS)
Envio meus cumprimentos e manifesto minha admiração por todos os colegas que participaram ativamente do movimento para a implementação de cotas na UFRGS, e em especial aos colegas do Comitê Pró-Cotas, pelo trabalho de mobilização realizado.
A atuação dos colegas foi, tenho certeza, fundamental, juntamente com a participação de outras entidades, comunidades e indivíduos, para a sensibilização da comunidade universitária quanto à importância das cotas. Parece-me um passo curto, mas mesmo assim difícil e significativo em direção à revitalização da UFRGS e a uma sociedade mais justa. Faço questão de expressar minha felicidade com o fato, que para mim - e imagino que para muitos outros - alimenta o sentido de estar em uma universidade pública e reforça o papel desta na sociedade.
Torço pela continuidade da mobilização e também por sua institucionalização, para que seja possível dar o apoio necessário àqueles estudantes que se valerem da política de cotas para o ingresso na universidade, potencializando o papel transformador do conhecimento.
Ivan Paolo de Paris Fontanari

DIA HISTÓRICO!

Hoje foram aprovadas no Consun as COTAS na UFRGS! 30% de cotas para egressos de escola pública e dentro delas, 50% para negros. 10 vagas suplementares para indígenas.
Dia histórico!
Laura Lópes (doutoranda em antropologia social, UFRGS)

HOJE A UFRGS ESTÁ DE PARABÉNS!

Parabéns e reconhecimento para todos os que, de alguma forma, lutaram por quotas na universidade. Acho que é um passo muito significativo par pensar essa instituição, em minha opinião paralizante, que é o vestibular, e que condiciona a forma como os jovens lidam com a educação e com a vida... Agora que foi aberto um espaço de reconhecimento das diferenças dentro dessa corrida por um lugar na universidade pública à qual está direcionado e condicionado o crescimento dos jovens, seria importante continuar o debate sobre novaspossibilidades de pensar a forma de ingresso ao ensino superior de todas as formas.
Hoje a UFRGS está de parabéns.
Daniel Etcheverry (dourodando em antropologia social, UFRGS)

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Raça ou Classe? Enfim a questão foi resolvida, nos muros da João Pessoa em Porto Alegre

LUCIANE SOARES (Doutoranda em Antropologia da UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO, professora na Faculdade de Direito/UFRJ)


Quantas vezes, intermináveis discussões iniciaram quando algum desavisado tentou resolver a esta questão: No Brasil, o problema não é de raça como nos Estados Unidos, e sim de classe. Já ouvi mais de vinte vezes estas discussões entre amigos, doutores, estudiosos, especialistas, motoristas de táxi, policiais, etc..


Finalmente na última semana de junho de 2007, ano do lançamento de mais um livro com o termo “divisões perigosas” (parece que o perigo fascina alguns antropólogos) para pensar raça no Brasil, o Rio Grande do Sul sai na frente e resolve nosso problema. Vamos por pontos: O espaço público como espaço de manifestação de opiniões é muitas vezes utilizado nas grandes e não apenas tão grandes cidades para pichações nazistas, bem como contra homossexuais. Então qual a novidade interessante nesta pichação?


Neste caso, não temos apenas uma frase direta simples ou o símbolo da suástica. Temos aqui uma articulação mais complexa que colabora na compreensão de algo que tenho pesquisado: Não há insulto racial gratuito. Em pesquisa sobre racismo no Rio Grande do sul, analisando 531 ocorrências de delegacia, foi possível registrar que 171 delas faziam referência a uma condição “anômica”, ou seja, determinada cor de pele é associada à delinqüência e imoralidade. Mas 152 destas ocorrências, relacionavam raça e condição social sugerindo que uma ordem social dada deveria estabelecer que determinados indivíduos pertencem a uma posição social inferior- no Rio de Janeiro, são os favelados, no Rio Grande do Sul, os vileiros, maloqueiros.


Quando um grupo social expressa seu descontentamento contra determinada ação política nos termos que foram expressos em Porto Alegre, estamos diante do problema que SEMPRE balizou discussões sobre raça e racismo no Brasil: o lugar, o espaço social não é disputado apenas com base no desejo por mobilidade social. A cozinha aqui é o sinônimo de todas as senzalas do país, de todos os lugares não vistos, não protagonizados, não iluminados. Quero opor a cozinha ao salão de atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o espaço máximo da consagração, do rito de passagem que concretiza a conversão do capital econômico paterno em capital cultural essencial no século XXI. Este é o lugar dos desfiles de vestidos e fotos, o lugar do espetáculo. Não importa se não existem postos de emprego suficientes para os formandos da turma de direito, engenharia elétrica ou publicidade em 2007. Acima de tudo, este é o derradeiro momento de separação, diferenciação entre aquele estudante que fez uso durante quatro anos dos serviços do restaurante universitário e o funcionário público mal pago que seguirá por mais quatro anos servindo os novos rebentos, vindos da serra, do interior ou da Cidade Baixa. Este funcionário é negro, e nisto os pichadores foram precisos. Provavelmente, suas empregadas domésticas também o são. O fantasma que assombra estas mentes atávicas, insinua que em um futuro muito distante, os professores também poderiam ser negros, assim como os médicos e os juízes.



Quem estaria na cozinha?


Portanto, proponho que para avançar nesta discussão, possamos abandonar a questão retórica sobre o problema da raça versus a classe no Brasil, em nome de uma discussão mais construtiva (ou mais séria). Raramente veremos um posicionamento racista (manifesto ou sutil) que não articule em alguma medida cor e pobreza, cor e posição social inferior, enfim, não precisamos eleger uma categoria em detrimento da outra como problemas matemáticos entre conjuntos que pertencem e não pertencem.

Por último um problema que tem me preocupado e que provavelmente nem passe na mente dos pichadores, que talvez não precisem deste serviço, é que no atual contexto político do país, temo que em pouco tempo, sequer teremos a cozinha de um restaurante universitário como um dos serviços essenciais para a permanência de um número significativo de brancos, pardos e negros na universidade pública.

Negro na UFRGS “só se for na cozinha do RU”: o lado cruel da “democracia racial”.

Gilse Rodrigues (Antropóloga e professora universitária da PUCRS).


A frase “ironicamente” inscrita em vermelho (do sangue que derramamos, real ou simbolicamente, daquele que ameaça nossa “estabilidade”) nos muros da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, deixa à mostra o lado sombrio e inaudito (apenas para os incautos que se arrogam o direito de decretar a inexistência do racismo no Brasil) do famoso preconceito racial à brasileira. A mim que sempre profanei o sagrado mito da democracia racial não surpreende nem um pouco. O que esta atitude de jovens, certamente, de classe média, demonstra é, além da já conhecida exclusão de classe, um aspecto que muitos de nós por ingenuidade, ignorância, covardia ou na pior das hipóteses (e talvez a mais freqüente) por uma postura mal intencionada de defesa do status quo branco, escondemos ao longo dos anos: a exclusão racial.
A leitura ávida que fiz nos últimos dias dos textos de colegas antropólogos (José Carlos dos Anjos, Cláudia Fonseca, Patrice Schuch e Denise Jardim) defendendo as cotas para negros na universidade - eu que já era favorável a qualquer tipo de ação que desestabilize e interpele o poder estabelecido a partir de um viés exclusivamente eurocêntrico na produção de conhecimento - fiquei com a única opção de, humildemente assinar embaixo endossando todas as suas argumentações.
Aliás, argumentos é o que buscamos o tempo todo neste embate, fundamentados em estatísticas, teorias clássicas e contemporâneas, fundamentos científicos. Para alguns antropólogos, contrários às cotas, falar em raça é ressuscitar os mortos, destacando a perversa biologização do conceito. Esquecem eles que raça aqui, como salienta José Carlos dos Anjos, é uma categoria sociológica e política. Todos os tipos de explicações já foram utilizadas para evitar a entrada de negros através de cotas na universidade. Apesar de tudo, quero crer que para o bem da nação não seremos tão estúpidos a ponto de impedir a implementação das cotas raciais na UFRGS.
Como não tenho argumentos inovadores para acrescentar a esta discussão, venho aqui apresentar o argumento a partir de minha própria história escolar como exemplo da repartição dos espaços sociais para brancos e não brancos no sistema de ensino. Branca e de classe média, se é que isto significa alguma coisa, me ressinto da falta de colegas que nos primeiros anos de escola (pública durante os longos anos de ensino fundamental e 2º grau) dividiam comigo as carteiras escolares.
À medida que me aproximava do ensino superior, foram ficando para trás, não sei bem onde, meninas e meninos negros e mulatos, que como eu tinham sonhos e projetos para o futuro (e pasmem os contra-cotas mais conservadores, sonhavam em ser médicos, advogados, psicólogos, cientistas). “Se os negros não vão pra universidade talvez seja por que eles não querem ir” já ouvi muitos dizerem.
Sabemos que o processo de democratização do país, sobretudo após a constituição de 1988, trouxe a intensificação da universalização do ensino, colocando muito mais crianças e jovens na escola, ou seja, aumentou também o número de crianças e jovens negros estudando, então, me parece que a ausência de negros na universidade é ainda mais problemática. Difícil não perceber que 2% de negros nas universidades é realmente muito pouco neste contexto “tão democrático” do ensino no Brasil.
Hoje, professora universitária, não encontro entre meus pares nenhum negro. O que aconteceu? Onde estão estes atores sociais que povoavam minha infância escolar e hoje, nos corredores das universidades são “vistos” (quando os percebemos) limpando o chão ou na cozinha como reivindicam os racistas da pichação citada anteriormente (ou o termo adequado seria nazistas?). “O racismo não existe porque o negro brasileiro sabe qual é o seu lugar”, devem estar dizendo baixinho para si mesmos alguns “bem intencionados” defensores da meritocracia. Também sou favorável a um sistema meritocrático desde que todos estejam em pé de igualdade para a disputa, o que não é o caso no Brasil.
É claro que existem negros em ascensão social (um bom argumento dos crentes na democracia racial), mas certamente suas profissões de um modo geral (e aí entram as estatísticas apresentadas por meus colegas) não passam nem perto da universidade, e se passam é em um número tão pequeno que só faz reforçar a lógica da exclusão racial.
Eu me pergunto se com esta atitude contrária às cotas não estamos contribuindo, ainda que de forma inconsciente, para uma pedagogia da subalternidade negra. Por acaso alguém acredita que o projeto de vida dos negros é se manter em exclusão por livre e espontânea vontade, terminando no Ensino Médio a sua participação no mundo do conhecimento formal? Ou acreditam que os negros são menos inteligentes ou menos competentes do que os brancos, por isso não chegam aos bancos universitários? Se alguém acredita nisto, sinto muito, mas seria de bom tom, assumir publicamente seu racismo, para que possamos saber claramente com quem estamos lidando.
Reforço aqui a discussão trazida brilhantemente por José Carlos dos Anjos, a respeito das repartições dos espaços sociais e me pergunto: que tipo de saber estamos produzindo quando impedimos uma parcela significativa da sociedade de construir junto conosco, dentro do espaço acadêmico, um debate científico sobre a realidade social brasileira, permeada insistentemente pela raça e pelo racismo? Quem sou eu, branca de classe média para acreditar que tenho o poder de decretar a existência ou não do racismo? Quando em minha vida sofri as conseqüências do racismo na minha pele clara e nos meus olhos verdes para afirmar de forma tão autoritária que raça e racismo são categorias inexistentes?
Se atuo cotidianamente em um espaço social no qual há uma inexistência ou invisibilidade flagrante daqueles que neste país sofrem constantemente as conseqüências nefastas da desigualdade racial, meu papel é permitir (e não impedir)que se abram as portas deste espaço irritantemente homogêneo para que a alteridade se apresente e fale de si mesma. Não posso falar em aula com meus alunos sobre a inexistência de raça e racismo se meu interlocutor é tão ou mais branco do que eu. Sinto a necessidade de alguém que me interpele e traga outros argumentos para a continuidade da discussão em um nível digno que possa ser legitimamente reconhecido como produção de conhecimento científico sobre o mundo.

Gilse Rodrigues, antropóloga e professora universitária da PUCRS.

POR QUE APOIAMOS COTAS RACIAIS E SOCIAIS NA UFRGS?

Nair Iracema Silveira dos Santos e Rosane Neves da Silva (Professoras do Instituto de Psicologia)

Apoiamos o sistema de cotas, considerando o contexto e realidade da educação no Brasil, os dados estatísticos sobre perfil de estudantes que ingressam em nossa universidade e a história política e social do país, especialmente no que diz respeito à inserção da população negra neste contexto, que se expressa na profunda desigualdade social e exclusão racial, assumida e reconhecida em vários fóruns nacionais e internacionais. Na III reunião Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, realizada em Durban, na África do Sul, em agosto de 2001, o governo brasileiro reconheceu a discriminação racial no país e assumiu compromisso de implantar ações afirmativas.

As políticas de ingresso na universidade pública brasileira têm priorizado a lógica meritocrática, justificando-se a necessidade desta como forma de seleção já que “não há vagas para todos”. No entanto, esta lógica se afirma como um processo natural, sem que se problematize por que esta forma e não outra, quando os dados nos mostram que ela é excludente e discriminatória, não cumprindo com os princípios de uma educação pública que, se não é possível para todos, que o seja para aqueles que não terão possibilidades de acesso ao ensino privado e para negros e índios, historicamente marginalizados na divisão social brasileira. É preciso considerar aqui a análise do professor José Jorge de Carvalho (2006) na discussão da proposta de cotas na UnB. Segundo o autor, não há equivalência entre exclusão social de brancos e exclusão social de negros, porque apesar de termos no país alguns momentos de mobilidade social, o mesmo não se pode dizer quanto à mobilidade racial, que tem sido “extremamente restrita” no Brasil. Assim não podemos afirmar que estudantes brancos e negros pobres estão em igualdade de condições na luta pela ascensão social, pois o problema social e a desvantagem do negro são causados também pela discriminação racial. Concordarmos com a afirmação de que a renda familiar no Brasil é um fator importante para definição de quem entra na universidade e, portanto, defendemos cotas raciais, além das sociais, considerando que entre estudantes pobres, os negros sofrem desvantagens por estarem nas faixas de pior distribuição de renda em relação aos estudantes brancos, que já contam com uma vantagem de escolaridade frente aos negros.


Consideramos também que a proposta de uma prova de “habilidades cognitivas” conforme defendem alguns colegas, não muda o processo atual do vestibular na UFRGS, pois o mérito continua sendo o primeiro critério. No sistema de cotas os estudantes negros e pobres farão as provas e serão avaliados. O mérito continuará sendo um critério, mas não o único e nem o primeiro. Além disso, estes estudantes ao ingressarem na universidade serão avaliados como os demais e terão que apresentar desempenho acadêmico. Possíveis defasagens de formação poderão ser compensadas por outras iniciativas na universidade, considerando que “habilidades cognitivas” se desenvolvem ao longo da vida acadêmica. Estudos já realizados com estudantes que ingressaram em universidades por sistema de cotas comprovam que o desempenho acadêmico destes é igual, ou até maior, em alguns casos, que outros estudantes ingressantes no sistema universal. Incluir mais uma prova para medir “habilidades”, que o próprio vestibular no sistema atual já mede, é negar a lógica excludente deste processo e não indica possibilidades de mudanças nas formas de inserção de estudantes negros e estudantes pobres no ensino superior.

Referências Bibliográficas:
CARVALHO, José Jorge de. Inclusão Étnica e Racial no Brasil: a questão das cotas no ensino superior. São Paulo: Attar, 2ª edição: 2006.

COMBATE DE IMAGENS

Regina Weber (professora do Departamento de História da UFRGS)

Ainda são possíveis outros argumentos a favor de ações afirmativas, tais como o são as cotas no ingresso do ensino universitário.
As cotas não terão a virtude de resolver e nem mesmo de minorar os problemas da pobreza do país. Elas são uma forma de tentar dissociar um determinado grupo étnico da imagem da miséria e outras mazelas de nossa sociedade.
Para o senso comum essa associação existe e não parece ter data para diluir-se; isto é, o senso comum brasileiro é racista e nem mesmo os casamentos interétnicos e sua prole mestiça têm acabado com isso. E porque permanece esse preconceito com os negros, se a escravidão que lhe deu origem já acabou há tanto tempo? Tomando o argumento de Wallerstein, alguém tem que fazer os trabalhos desqualificados mesmo na igualitária sociedade capitalista e democrática. Para viver integradamente em uma sociedade, alguns grupos tendem a adequar-se aos nichos profissionais que lhe são reservados.
O que as cotas podem favorecer é o surgimento de uma classe média negra, processo já em curso, de modo a tornar mais freqüente a imagem de negros em posições socialmente reconhecidas, autônomas. Isso teria efeito tanto sobre os próprios negros como sobre os outros. Nosso sistema econômico já produziu muitas crianças loiras faveladas, mas industriais negros praticamente não existem.
E porque esse grupo tem necessidade de um reforço institucional para isso, para esse combate de imagens? Uma razão é que a associação de um estamento inferior, causada por uma longa escravidão, a um traço fenotípico teve um efeito de longo prazo, certamente maior que as tranças que deveriam portar os chineses durante a dominação mandchu ou as tarjas do período nazista. A sociedade atual tem que se mostrar melhor que a do passado; há uma conta a ser paga e é preciso saldá-la. Enquanto as imagens negativas – extensas e amplas – de um determinado grupo étnico persistirem, um bônus social deve ser depositado, favorecendo esse mesmo grupo em sua luta contra as mesmas. A existência desta salvaguarda institucional, em si mesma, já um alerta de que a manutenção de uma confortável imagem de superioridade por parte dos brancos – obtida por herança – tem um tributo a pagar.

Regina Weber
Departamento de História/UFRGS

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Cotas: razão e sensibilidade

Arlei Sander Damo (professor de antropologia da UFRGS)

Entre os tantos argumentos contrários às cotas creio que um deles, ao menos, merece ser contestado: aquele que afirma serem as cotas uma ameaça à meritocracia. A mudança que está sendo proposta e será apreciada pelo Conselho da UFRGS altera parcialmente, e tão somente, os critérios de aceso à universidade, destinando uma parte minoritária das vagas aos melhores concorrentes entre os cotistas - no máximo 20% das vagas, depois de três anos da implementação do programa (em 2010, portanto). Não está em jogo qualquer outra alteração, de modo que os cotistas estarão sujeitos aos mesmos critérios de avaliação dos demais estudantes ao longo da realização dos seus cursos.
O vestibular, como a etimologia de “vestíbulo” sugere, é um dispositivo visando restringir o acesso a um bem precioso: o ensino de terceiro grau gratuito e de qualidade. Ensino “gratuito” graças ao Estado e, portanto, aos brasileiros de todas as classes e de todas as raças. E “de qualidade” em razão do empenho de todos os que fazem parte da universidade, sejam favoráveis ou contrários às cotas. Além desta função utilitária, imprescindível para adequar a escassez da oferta à excessiva demanda por vagas, o vestibular é um concurso, como outro qualquer, cuja disputa é estabelecida no espectro de algumas modalidades de conhecimento. Um sujeito intelectualmente mediano, mas bem treinado, não terá maiores problemas em passar pelo vestibular, mesmo porque o concurso poderá ser realizado indefinidamente. A ilusão de que se é alguém ou, o que é pior, que se é mais do que os outros, por ter sido o 1º ou o 2º classificado nesse tipo de disputa é amplamente disseminada no meio acadêmico. Na medida em que os aprovados são, em geral, aqueles que se preparam estrategicamente para a disputa, não raro desde tenra idade e com o suporte de capital econômico familiar, o vestibular pode ser muitas coisas, menos um procedimento justo de aferimento de mérito, desde que este termo seja entendido no sentido amplo de sua acepção.

Não vejo, pois, razão para tanto estardalhaço. Se houvesse uma proposta de mudar todo o sistema de avaliação da universidade, estabelecendo privilégios para determinadas classes de alunos, quaisquer que fossem, provavelmente eu seria contra. Mas o que está em discussão é apenas a flexibilização do ingresso, sem nem mesmo facultar os cotistas do concurso. Tenho razões suficientes para firmar minha convicção de que as mudanças no vestibular, visando incluir alunos de escola pública, negros e índios, não agridem a meritocracia. A universidade é um centro de produção e disseminação de capital simbólico, uma modalidade de capital que pode ser reconvertida em outros capitais e, portanto, servir como um potente mecanismo de propulsão social e econômica. O atual vestibular favorece os que têm acesso à ampla rede de ensino que se estruturou no seu entorno; treina, portanto, indivíduos para burlar, com “truques” diversos, o sacrossanto dispositivo meritocrático. O que um vestibular com cotas faz é servir como um catalizador para determinados segmentos de raça e de classe social.

A propósito, meus bisavós vieram da Itália. Não foi antes de 1875, quando chegaram ao Sul do Brasil as primeiras levas de imigrantes, nem depois de 1890, data de nascimento de um dos primeiros descendestes. É possível, inclusive, que tenham chegado em 1888, ano em que os escravos foram oficialmente alforriados. Coincidências à parte (muitos descendentes de cativos lutam até os nossos dias para legalizar suas glebas), meus bisavós foram contemplados com suas cotas de terras pelo governo brasileiro. Eles cultivaram-nas, depois trocaram por outras e por outras mais, espelhando descendentes por vários estados brasileiros. Tiveram méritos nesse processo, sem dúvida, mas na origem há uma concessão importante, não posso negar.

Sou a favor das cotas, pois os que até agora se manifestaram contrários a elas não me convenceram de que elas serão perniciosas à UFRGS, nem me impressionaram com conjecturas que semeiam o pânico em relação às mudanças. Também sou pelas cotas por uma escolha política, que como outras tantas escolhas do mesmo gênero dependem de sensibilidade.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Raça, Sociologicamente


José Carlos dos Anjos - Doutor em Antropologia – Professor do Departamento de Sociologia – IFCH/UFRGS.

Os espaços de interação que envolvem processos de recrutamento, filtragem e rusgas sociais, estão informados por esquemas geradores de apreciações e expectativas do tipo: "quando o negro não suja na entrada, suja na saída". Conceituar raça do ponto de vista sociológico é levar em conta o peso histórico do efeito agregado de milhares de reconhecimentos cotidianos ligeiros e insustentáveis como esse. Trata-se do efeito histórico de dispositivos objetivos e de disposições subjetivas para repartir e definir o lugar das pessoas tendo como uma das bases de apreciação o fenótipo. O "lugar de negro", esse execrável princípio de partição de populações, se faz evidente porque existe esse substrato material causador de impressões marcantes em disposições subjetivas preparadas para racializar.

Não é porque cientistas dizem que raças não existem que elas passam a não existir socialmente. Historicamente, a não existência de raças precisa ser praticada, imaginada em dispositivos institucionais concretos, tornada presença visível de negros nos espaços mais caros da nação, sob pena de ficarmos condenados à presença visível da insistência de raça.

A entrada nos campos mais especializados de concorrência social como é o caso das profissões liberais, a universidade, os mundos artísticos de elite, estão duplamente interditados aos negros. Em primeiro lugar pelas exigências vinculadas ao direito de entrada, condicionadas pelo peso das heranças (no caso do vestibular, o capital econômico que faculta o acesso a cursinhos, por exemplo).

Em segundo lugar, a cor da pele conforma um habitus racista que se expressa, sobretudo nos momentos de seleção para cargos e funções dos espaços sociais mais institucionalizados. O modo de funcionamento do racismo limita tanto mais as expectativas com relação a candidatos negros quanto mais elevados os níveis de concorrências. Mais ainda do que a ausência de capital econômico, cultural e social as trajetórias negras carregam uma herança (negativa) que se reproduz continuamente, que é o destino na forma como ele é socialmente construído e incorporado. Isto é, uma criança negra que não vê nenhum médico negro nas novelas e não tem nenhum parente médico dificilmente poderá desenhar para si um destino de médico. Uma família negra que sabe que um investimento custoso nos níveis iniciais de ensino não irá se reverter em possibilidade de entrada na faculdade para a sua criança dificilmente fará esse investimento por um longo período de tempo. Não se trata apenas, portanto de uma questão de desigualdade na distribuição de renda. Há uma desigualdade na distribuição de expectativas de ascensão social. É essa reorganização nacional da economia das expectativas que está hoje em jogo quando se fala em políticas afirmativas.

Palestra-Ato pelas Cotas Raciais e Sociais na UFRGS

Exposição dos motivos do apoio às cotas raciais e sociais na UFRGS, por professores da universidade e lideranças do movimento social negro.
Nesta terça-feira, 26/06, no Pantheon - IFCH.18:00 Campus do Vale - UFRGS.
Convide professores e estudantes!
Divulgue em suas listas!

Comitê pró-cotas raciais e sociais na UFRGS.